sábado, 22 de fevereiro de 2014

conselho eterno de um poema

Para ser grande, sê inteiro :
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.
(Ricardo Reis 14/02/1933)

Esse poema, eu o li muito cedo em minha vida e a princípio não o entendi, não entendia nada. Não entendia como alguém podia se chamar Fernando Pessoa e usar um outro nome - Ricardo Reis, e tudo era um mistério... na verdade porque a própria vida era um mistério ainda pra mim. Não entendia como ela funcionava. Entretanto, intuía, de certa forma, o que ele queria dizer, vendo com meus olhos de criança... qualidade boa essa que tenho, a esperteza de compreender as coisas, talvez já soubesse o que vinha pela frente...
Ao longo do tempo, vez ou outra me lembro desse poeminha/ poemão, conselhinho/ conselhão, e fico feliz de um dia ter colocado meus curiosos olhos sobre ele, pois , como me ajudou... nas minhas noites mais escuras, quando eu achava que não havia saída, a imagem daquela lua inteira, brilhando sobre um lago sereno, preenchendo tudo com sua luz, me confortava.
Agradeço!!

A imagem onírica é do ilustrador americano Rory Kurtz, que diz ser
ilustrador desde o dia em que era crescido o bastante para segurar um giz de cera.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

mulheres possíveis

Tenho percebido que, de uns tempos pra cá, as mocinhas dos filmes não são mais as mesmas. Eu também não sou mais a mesma, e venho me identificando e sofrido e chorado e torcido pelas mais malucas possíveis. Vejam bem, assisti só agora o  O Lado Bom da Vida -acho q o título em inglês é Silver Linings Playbook, algo assim. Custei a assistir porque sabia intimamente que ia sentir o mesmo que falei no post Blue Jasmine, a mesma inquietação. Foi pior... Pior porque o filme é apaixonante, uma comédia romântica daquelas que a gente chora e chora e só quer abraços e chocolates e faz beicinhos de choro. Todos os atores são bons, mas, retiro o que pensei de mal da Jennifer Lawrence: ela está muuuiiito boa, muito boa mesmo. Ganhou o Oscar com louvor, dá até pra gente saber a cena em que ela segura o troféu e pode chamar de seu. É uma das mais marcantes: Ela fala que a gente tem vários lados... lado bom, lado ruim e mesmo um lado sujo, e que ela gostava de todas as partes dela e as respeitava a ponto de conviver bem consigo mesma, será que ele poderia dizer o mesmo ??? E eu, posso dizer o mesmo?? Não é lindo, gente? Mas o mais comovente e mais importante pra mim e pra esse post que estou escrevendo é que todas as personagens são possíveis, são reais até, sofrem de transtorno bipolar no caso desse filme, mas há uma tendência de apresentar personagens com problemas psiquiátricos normais, sutis, desses que eu tenho ou que você tem, depressão, ansiedade, angústia, raiva, problemas sexuais e de relacionamento e que são ignorados como algo do qual não devemos falar. Me lembrei de dois outros filmes que assisti recentemente e que tinham personagens femininas quase desequilibradas psicologicamente e com as quais me identifiquei pela forma como eram plausíveis - Jovens Adultos- Young Adults, fala de uma escritora de best-sellers teens, no meio de uma crise pessoal e psicológica  , e um outro mais leve, Quatro amigas e um casamento-Bachelorette, de comédia, mas com a tensãozinha latente nas entrelinhas, dá para se identificar com as quatro personagens de uma forma ou de outra, são várias faces dessa mulher da qual tenho falado aqui.
Deve ser bom que alguém pense em fugir dos eternos clichês,paixões,musas, casamentos e filhos perfeitos, e retratem mulheres possíveis, cheias de problemas,medos e com gavetas cheias de remédio tarja preta pra tomar, aí a gente se vê e pensa: sou dessas!!
Detalhe feminino de um grafite de Nina Pandolfo.
O vídeo é de uma música que se chama Concept da banda chamada Teenage Fanclub. é só apertar o play.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

marias e clarices

Por que eu não falo de Clarice Lispector? Por que eu não cito Clarice Lispector? Sendo direta, como sempre, pois aqui tempo é mais que ouro, 1 minuto são 5 minutos, igual nos sonhos... não a cito porque a respeito. O que li dela, foram poucos livros, uns de contos, tenho alguns favoritos que li inúmeras vezes e alguns romances, até mais densos. Sempre que releio vejo coisas novas que não tinha visto antes e me surpreendo, então ela pra mim é uma esfinge, indecifrável. Decifrar Clarice seria decifrar a alma feminina e desnudar consigo todas as outras grandes autoras junto, como Virgina Woolf, por exemplo. 
Logo, compreendam o quanto é revoltante ver suas palavras citadas em vão no facebook ou no twitter, às vezes acompanhada por um gif fofinho, não que eu seja contra, acho que nas redes tem é que se espalhar o pensamento mesmo, seja de quem for, seja de que jeito for,pra ver se alcança quem dele precisa.
Mas eu não, ainda prefiro o prazer daquela menina recifense, que cheirava os livros tão preciosos e os lia com cuidado,joias preciosas.
Diminutamente, humildemente, tento fazer o que ela fez, escrever e escrever, pra ver se entendo alguma coisa dessa coisa inusitada que chamamos vida.

Blue Jasmine

Outro dia fui assistir 'Blue Jasmine', do Woody Allen, e já fui com dor no coração. Primeiro que eu já sabia intuía que era um daqueles dramas disfarçados de comédia. Bom, o povo diz que é comédia, mas eu,  se rio, é um sorrisinho nervoso, sem graça, ansioso. E dessa vez, me consumiu!! Eu me identifiquei de uma forma peculiar com as personagens - Jasmine e com sua irmã Ginger, sim, com as duas, pois pra mim, são duas faces de uma mesma moeda. Nunca vi algo tão claro, ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais entre si . Os métodos, a ética, a visão de mundo, o contexto social é só geografia. Acho que tem uma desesperança no filme que assusta, tudo é cru, tudo está às claras, como num conto de Clarice Lispector, deve ser daí a identificação - era absurdamente feminina a loucura, as adequações aos conceitos sociais e a quebra de tudo sem dó, ela falando sozinha, falando, falando... é de partir o coração e é engraçado, absurdamente engraçado também. E a Cate Blanchett? Oh my God!! Magnífica!!
Depois, saí e esqueci , mas dias depois , eis que assisto outro filme dele: 'Simplesmente Alice', de 30 anos atrás e eis que Jasmine parte meu coração outra vez e me faz enxergar o que eu não queria, que a sensaçãozinha clariciana sempre volta : para Jasmine não há esperança !! para Jasmine só há a mais pura derrota, o desespero e a tragédia como no 'Sonho de Cassandra', e pior, porque Jasmine não quer a tragédia, ela quer seu velho mundo, seu velho sonho, sua falsa vida perfeita, ela resiste . Alice procurava escapar de sua vida perfeita e mesmo assim ainda tinha a proteção da mágica, da esperança, da hipnose, de chás alucinógenos e outras coisitas que lhe consolavam em sua confusão. Jasmine, não. Jasmine é blue .